quinta-feira, 26 de julho de 2012

Pássaro cativo

Pássaro Cativo 
Olavo Bilac 


Armas, num galho de árvore,o alçapão. 
E, em breve, uma avezinha descuidada, 
Batendo as asas cai na escravidão. 
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos e tudo. 
Por que é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste sem cantar? 


É que, criança, os pássaros não falam. 
Gorjeando apenas a sua dor exalam, 
sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer: 


" Não quero o teu alpiste! 
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que voar me viste; 
Tenho água fresta no recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores, 
Tenho frutos e flores
Sem precisar de ti! 


Não quero a tua esplêndida gaiola
Pois nenhuma riqueza me consola, 
De haver perdido aquilo que perdi...


Prefiro o ninho humilde construído
De folhas secas, plácido, escondido. 
Solta-me ao vento e ao sol! 
Com que direito à escravidão me obrigas? 
Quero saudar as pombas do arrebol! 
Quero, ao cair da tarde, 
Entoar minhas tristíssimas cantigas! 
Porque me prendes? Solte-me, covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade! 
Não me roubes a minha liberdade...
Quero voar! Voar! " 


Estas coisas o pássaro diria,
Se pudesse falar, 
E a tua alma, criança, tremeria, 
Vendo tanta aflição, 
E a tua mão tremendo lhe abriria 
As portas da prisão... 


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